Mãe Índia

Pra mim a Índia foi uma mãe.

Sério! Uma mãe austera, de muitas faces mas que acima de tudo cuida, protege e ama. Uma mãe que logo na chegada me pegou carinhosamente pelo mão e me levou em segurança para Vrindavan - o começo da minha 2ª jornada rumo ao Nepal.

Assim que aterrissei, ainda dentro do aeroporto, numa loja da Vodafone, comprei um chip indiano para o meu celular. Comprei, saí do aeroporto para pegar meu taxi e na hora que fui utilizá-lo, nada... Esperei, esperei, tentei, tentei e nada. Quando quis voltar para dentro do aeroporto, para ir de novo na loja que eu havia comprado o chip, dei de cara com um guarda armado com uma enorme metralhadora que me disse que eu não poderia entrar porque eu já tinha saído. Oi!!!! Fiquei ali na rua, entre o guarda armado e o aeroporto sem ter como me comunicar com a empresa de táxi que eu tinha contratado via app para me buscar. Tinha levado uma tungada, PoW!!!! e logo na chegada, ainda por cima numa loja de dentro do aeroporto… vai vendo. Bom esperei um pouco, respirei, e pedi ao guarda que me ajudasse e para minha surpresa, ele não só me ajudou como ligou para a empresa que eu tinha contratado e me colocou dentro do carro quando ele chegou. Inaaacreditáveeeeel, ri comigo mesmo e agradeci a ele, o guarda e a ela - a grande Mãe, por cuidarem de mim.

Vrindavan, a cidade dos 5000 templos.

Vrindavan ao entardecer.

Seguindo com e no caminho de Krishna, pouco a pouco adentrando à Índia e me rendendo à devoção.

Radhe Krishna. Radhe Krishna.

À devoção e a Yamuna.

O sagrado rio Yamuna.

Yamuna, o rio sagrado onde Krishna passou sua infância.

Perto de uma de suas margens fica o templo onde eu fiquei hospedado, o templo Sri Radha Gopinath Gaura Gadadhara Danta Samadhi Mandir um dos 5000 templos dedicados à Krishna espalhados pela pequena cidade.

Anuj, Radhanath, Raghu e Tarun os guardiões da minha jornada em Vrindavan.

Peregrinando pelo entorno da cidade sagrada.

Peregrinando pelo rota de 8k que circunda a cidade.

Ou simplesmente contemplando o amanhecer nas suas ruas desertas.

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O amor...

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... e a devoção ao sagrado.

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Estavam e estão por toda parte.

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Hare Krishna, Hare Krishna, Krishna Krishna, Hare Hare.
Hare Rama, Hare Rama, Rama Rama, Hare Hare.

Fui do norte ao sul da Índia fazendo no meio duas paradas pra meditar, uma em Auroville e outra no Vipassana de Arunachala. Duas paradas pra dar um tempo, me ‘situar’ e integrar alguma coisa que eu já tivesse vivido. Há tá! Mas quem disse que na Índia a gente para? Hahahahaha e depois de dias imersos na energia de Krishna, em Vindravan, lá fomos nós para Barsana ao encontro de Radha.

Ao encontro do amoooorrrrrrrrrr, do puro amorrrrrr.

Indo na maior alegria ao encontro de Radha.

Indo na maior alegria ao encontro de Radha.

Chegando lá a vibração era outra, feminina d+, linda d+. Tudo muito colorido e decorado com o maior primor, com a maior alegria, a alegria de uma festa na casa de uma mãe que recebe todos os seus filhos de portas abertas. Por mim teria passado o dia, a noite, outro dia, outra noite lá mas ok, ok nada de desejos e expectativas se não já viu… Vou ter que reencarnar de novo só pra voltar lá pra realizar o tal do desejo que eu não realizei nesta vida e como eu já tinha vivido isso no Egito, dentro da pirâmide de Quéops… Ops! mas isso já é outra história. Segui…

Bhajan no Templo de Radha em Barsana.

Bhajan no Templo de Radha em Barsana.

De Krishna à Buda passando pela cidade universal e pelo sábio Ramana. Ficando aos seus pés e ao redor da montanha sagrada de Shiva, para depois ir mais ao sul ainda e aí sim rumar ao norte chegando enfim de volta ao Nepal. Esse era o meu itinerário, só que pra chegar lá eu ainda teria muito o que caminhar.

Bom é aquela coisa: entre o conhecer e o saber existe mesmo um enorme caminhar, uma enorme distância e no meio dela - da minha, eu tinha escolhido ir para Auroville a cidade universal. A primeira vez que ouvi falar de Auroville foi pela minha mãe quando eu era criança. Ouvi sobre Auroville, sobre outros lugares sagrados da Índia e muito sobre os mistérios e os significados de se viajar pra lá, muito também sobre os desafios e sobre os perigos. Minha mãe depois de se divorciar tinha estado na Índia viajando sozinha por quase um ano durante a década de 1970. Uma de suas paradas foi em Auroville que naquela época estava no início da sua formação. Dela, ouvi sobre a 'Mãe', muito sobre as dificuldades de se formar e desenvolver uma comunidade internacional e também sobre o que essa comunidade tinha se tornado. Claro tudo isso era só à partir do ponto de vista dela mas deve ter sido por isso que ao pensar em Auroville eu me sentia seguro.

A praça da Paz da cidade Universal: Auroville.

The Matrimandir is there for “those who want to learn to concentrate.”
”No fixed meditations, none of all that, but they should stay there in silence, in silence and concentration. A place for trying to find one’s consciousness.”
— The Mother

Matrimandir: o templo da Mãe.

Fui à Auroville pensando no Matrimandir, nos ensinamentos da Mãe, de Sri Aurobindo e em Swaram um mestre curador sonoro que vive e trabalha em Auroville há mais de 30 anos. Pensando no que eu poderia e teria a aprender com eles.

Muitos pensamentos e expectativas mas que também são de certa forma impulsos que nos movem à frente. Sim nos movem, só que como toda e qualquer expectativa nos confronta também com a enorme distância entre a fantasia - que existe em nossa mente e o que de fato é a realidade.

Diante delas, das minhas expectativas, Auroville me pareceu muito ‘turística’ e isso era justamente o que eu não esperava, óbvio.

Assim que cheguei fui a uma palestra sobre os ensinos ‘da Mãe’, uma palestra que de tão exotérica me fez pensar em quais, onde e por quem estariam sendo colocados em prática hoje em dia os ensinamentos dos dois mestres. Ninguém, nem eu mesmo, respondeu a essa minha questão e a cada atividade que eu ia em Auroville, inclusive as sonoras de Swaram, mais e mais eu sentia apenas a tal da vibração exotérica turística.

Até que chegou a minha vez de entrar no Matrimandir…

A câmara interior de Matrimandir.

O Matrimandir é a realização de um sonho ‘da Mãe’. Ao meu ver e baseado apenas no que eu senti lá dentro, já que eu fui propositadamente sem ter me informado muito, Matrimandir é uma tecnologia de contato como o Divino ou como a Mãe diz: de contato com a Consciência, com o TODO.

Você entra na nave e permanece o tempo todo em silêncio. Segue até a câmara interna e fica lá dentro em concentração por apenas 15 minutos. Acabou o tempo você se levanta e em completo silêncio vai embora. É simples assim.

E é na simplicidade que as coisas acontecem.

O globo de cristal que fica no interior da câmara central da Matrimandir.

When mind is still, then truth gets her chance to be
heard in the purity of the silence.
— Sri Aurobindo

O TODO é simples e é normal que o conhecimento seja protegido. Que uma primeira, segunda e outras tantas camadas sirvam de véu e de proteção ao próprio mistério, proteção àqueles - que como eu, éramos de certo modo apenas turistas esotéricos.

Cada um no ponto que tem que estar da sua trajetória, com suas virtudes e seus desequilíbrios inclusive, sem exceção.

O lago Lótus que fica em baixo da ‘nave’ do Matrimandir.

O lago Lótus que fica em baixo da ‘nave’ do Matrimandir.

Mas o Matrimandir não é só o 'câmara interna' e a cada visita você pode chegar um pouco mais cedo e escolher uma das doze câmaras coloridas de concentração ou ainda ficar contemplando o lago da Lótus. Pra mim o lago foi o ponto imagético mais belo de toda Auroville e a câmara azul meu local preferido de concentração.

A câmara de concentração azul

A câmara de concentração azul

Depois de quatro dias de Matrimandir, sete de Auroville, tinha chegado a hora de continuar minha viagem rumo ao sul da Índia. Comigo a certeza sensível de que um sonho dessa dimensão - o da criação de uma sociedade equilibrada, justa, harmoniosa e dinâmica onde homens e mulheres de todas as nações e credos, políticos e religiosos, possam vivem em paz e harmonia entre em si e com o planeta é um processo de desenvolvimento contínuo de consciência e elevação de vibração individual, social e planetária. Um processo e um sonho que serve à todos de contínua inspiração, modelo e fonte de aprendizado.

Late, I learned that when reason died, then Wisdom was born;
before that liberation, I had only knowledge
— Sri Aurobindo

A montanha de Shiva.

A montanha sagrada de Arunachala em Thiruvanamalai.

Pra mim montanhas são entidades, tem espírito e a montanha sagrada de Shiva - a de Arunachala em Tiruvannaamalai é… poxa… como dizer ou descrever algo que só se sente quando você está aos pés ou quando você sobe uma montanha dessa? O que eu senti, de um modo como eu nunca sentira antes, foi P A Z ! ! ! Uma paz morna que me engolfou assim que eu pisei no caminho que sobe até o seu cume.

O caminho de subida à montanha.

O caminho de subida à montanha.

Subi um pouco, mais um pouco e pouco a pouco fui me deixando levar até estar imerso num sentimento de unidade. Devagarinho cheguei até uma casinha e lá fiquei. Casinha na montanha onde Sri Ramana Maharshi viveu por 7 anos depois de ter passado outros 27 numa caverna.

A casa na montanha onde Sri Ramana Maharshi viveu.

Na volta descendo a montanha consegui prestar um pouco mais de atenção à paisagem e ver lá de cima o templo de Annamalaiyar, templo dedicado à Shiva e um dos maiores da Índia. Lindo…

Ramana, o sábio.

Bhagavan Sri Ramana Maharshi é considerado por muitos como o maior sábio do século XX. Um ser auto-realizado que passou anos da sua existência em silêncio absoluto ensinando a não-dualidade e a prática da autoinvestigação.

O olhar de Sri Ramana Maharshi, luminoso como a Lua cheia.

O olhar de Sri Ramana Maharshi, luminoso como a Lua cheia.

Bom! Aqui nesse ponto do meu relato é a hora de eu dizer alguma coisa linda, poética e inteligente sobre o sábio mas a verdade é que eu não tenho nada pra dizer. Mesmo depois de ler e ler e mais ler sobre ele e seus ensinamentos, mesmo depois de saber no mais íntimo do meu ser que a não-dualidade é um caminho conhecido e confortável pra mim mesmo assim não tenho nada a dizer.

S i l ê n c i o

O ashram de Ramana com a montanha de Arunachala ao fundo.

O ashram de Ramana com a montanha de Arunachala ao fundo.

Passei 3 dias indo ao seu ashram, 3 dias em silêncio aos pés de Bhagavan vendo os pujas, me concentrando e esperando o que sabia estava por vir: o retiro Vipassana. Era quase fim do ano, quase dia 31 de dezembro e a Lua cheia de Arunachala estava chegando.

Lá atrás quando eu estava planajendo a viagem eu tinha decidido fazer um retiro de meditação Vipassana durante a minha estada na Índia. Quando e onde eu ainda não sabia até que pesquisando sobre os centros indianos de meditação me deparei com uma fotografia do telhado de uma pagôda. Era só isso que havia na foto: a imagem de um telhado e um nome. Olhei e senti o meu coração aquecer, vi onde era e estava escrito: Vipassana Arunachala. Na hora me lembrei do sábio e da montanha. Fora que a data disponível para se fazer o retiro era bem no meio da minha viagem e ainda por cima durante a passagem de ano (31 dez). Bom me inscrevi e eu fui né!

Vipassana Arunachala.

Sri M. A. Subramanian, nosso professor com um dos alunos.

Sri M. A. Subramanian, nosso professor com um dos alunos.

O centro do Vipassana Arunachala fica do outro lado da sagrada montanha, há 10 km do ashram do Ramana. Peguei um tuc tuc e rapidinho depois de passar por lindas plantações de arroz tínhamos chegado lá. Era fim de tarde e pairava sobre nós a calma irradiada pela montanha que reinava ao fundo na paisagem.

Foi o meu 3º Vipassana, o primeiro que eu cheguei bem, sem estar identificadão com meus pensamentos e sofrimentos. Mas sim, tudo é impermanente, passa e passa rápido bem sei. E de tudo o que eu já fiz, de todas as práticas, o Vipassana é e foi a mais forte. Forte no sentido de se ir realmente fundo em si mesmo. Fundo na purificação e no entendimento do mecanismo da mente e do corpo. Vipassana é cirurgia cerebral e passar por ela não é fácil não mas é possível, opa é sim. É possível porque você está amparado por uma tradição milenar e por um sistema amoroso e muito seguro que é o ensinado por S.N. Goenka.

Dos retiros que fiz trago um ensinamento que me norteia a cada passo que dou:

Seja devoto das qualidades da pessoa, não da pessoa.
— S. N. Goenka

Não importa se essa pessoa, a que você é devoto, seja Buda, Jesus Cristo, Goenka ou um Guru. O que importa são as qualidades dos ensinamentos dessa pessoa, como ela os aplicava ou aplica na vida dela e você na sua. O resto é só a pessoa e como qualquer pessoa, por ser humana, é sujeita a erros e acertos. Pra mim ser devoto das qualidades da pessoa e não da pessoa em si faz sentido. Siiimmm também existe amor, muito amor pela pessoa mas amor consciente da sua humanidade, o que me deixa com os pés bem aterrados no chão. Aliás é esse estar de pé, com esse aterramento, que me dá asas pra voar e que me dá base pra estar, seguir e viver a minha vida.

A sala de meditação em primeiro plano com o templo que contém as celas de meditação ao fundo.

A sala de meditação em primeiro plano com o templo que contém as celas de meditação ao fundo.

Depois de dez dias intensos e cansativos senti no íntimo que tinha dado mais um passinho no longo caminho de me tornar consciente das sensações e ficar equânime diante delas. Um caminho de muitas vidas com certeza mas que pouco a pouco vai trazendo uma mudança que fica visível não só no pensar, no falar e no nosso agir mas principalmente no nosso olhar. Uma mudança que é a de uma vida de sofrimento para uma vida de amor e compaixão. Uma vida de puro Dhamma.

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Thiruvananthapuram e o colo da Mãe.

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Pausa de três dias em Tiruvannaamalai para descanso e aterramento e na sequência fui de busão para Thiruvananthapuram. Doze horas de viagem com direito à amanhecer nos arredores de Querala vendo paisagens e habitações muito familiares às nossas brasileiras. Cheiro de terrinha no ar, confirmando um pouco da raiz que temos em comum: a da colonização portuguesa.

Outra herança portuguesa e que é visível até os dias de hoje é a da religião cristã trazida por eles durante o período da colonização. Herança que pode ser vista nas inúmeras igrejas católicas espalhadas pelas cidades do sul da Índia. Fiquei imaginando e reverenciei a força desse povo, o português, e dos meus ancestrais, portugueses também por parte da família da minha mãe, que por onde passaram deixaram a sua marca e seus costumes. Hô povo forte pá!

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Não resisti e fui à uma missa celebrada em Malayalam a língua local. Siiiim eu não entendi nada do que falavam mas mistério é mistério e quando não se entende a língua se presta ainda mais atenção às sutilezas. As sutilezas e ao som - e o do Malayalam é lindo.

Rua de Thiruvananthapuram.

Rua de Thiruvananthapuram.

Ziguezagueando pelas ruas ‘quase desertas’ de Thiruvananthapuram encontrei uma esquina cheia de livros.

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E onde eu vi um livro nessa minha viagem eu me lembrei da minha mãe que é escritora. Me lembrei dela e das suas ‘Mulheres Viajantes’ - o livro que foi meu companheiro de aventura.

E por falar mais uma vez em mãe não é que eu chego na cidade e a Amma iria passar por lá no dia seguinte. Sorte né, pois é e lá fui eu receber o abraço dela.

Aleluia! Enfim minha criança pôde ser acolhida como ela sempre quis.

5000 pessoas a espera de um abraço, a espera da Amma, da Mãe.

5000 pessoas a espera de um abraço, a espera da Amma, da Mãe.

Fora que o abraço da Amma é a coisa mais fofa e perfumada do mundo, ficaria lá grudado no seu colo por anos a fio mas a fila anda e a dela era e é sempre enorrrrrme.

Amma abraçando um a um, até que todos tenham recebido um abraço. Puro amorrrr…

Amma abraçando um a um, até que todos tenham recebido um abraço. Puro amorrrr…

Na última noite, nas minhas últimas horas antes de pegar o voo para o Nepal ainda deu tempo de ir até a esquina pedir a bênção à Ganesha. E lá, bem no meio do vai e vem de uma esquina ‘quase deserta’ de Thiruvananthapuram, pude ficar em silêncio por alguns instantes e agradecer a Deus por tudo o que eu havia vivido.

Templo de Ganesha numa esquina ‘quase deserta’ de Thiruvananthapuram.

Grato por tudo Mãe Índia, te amo!

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As fotos dessa página são todas de minha autoria com exceção da foto de Durga que é de Thinkstock Images. A de Krishna é um still de um vídeo que está no Youtube. As de Aurovile que são de auroville.org, a da ‘câmara azul’ é de Joel Koechlin, a das ruas de Thiruvananthapuram que é Wikimedia Commons e a foto de Sri Ramana Maharshi que é do site dele.