Escola Peru Del Sonido Curador.

O maestro Tito La Rosa.

O maestro Tito La Rosa.

Tito La Rosa maestro curador do som é uma das referências fundamentais entre os curadores sonoros peruanos e mundiais. Pessoa luminosa, conectada, de fala baixa e serena, sempre bem humorado Tito faz, com seus instrumentos e seu sopro divino, uma ponte entre o ancestral e o contemporâneo, entre o céu e a terra, a matéria e o divino.

Ter tido a chance de conhece-lo e fazer com ele uma vivência de cinco dias nas montanhas de Carhuaz foi uma das experiências curativas que tive na vida. Foram cinco dias de convívio, cinco dias de iniciações em práticas sonoras ancestrais peruanas além de termos tido a chance de fazermos nossa própria flauta Quena com seu filho, o mestre luthier Gabriel Omar La Rosa.

Em uma dessas sessões fomos iniciados no trabalho das 9 portas da Escola Peruana Del Sonido Curador. 

Sou muito grato por ter lhe conhecido maestro, muito, muito agradecido pela sua generosidade e ensinamentos, agradecido por ter sido iniciado na Escola Peru Del Sonido Curador.

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O trabalho das 9 portas.

Inicialmente Tito nos explicou o que é a Escola Peru Del Sonido Curador:

"A Escola Peru é um grupo de curadores sonoros, de homens medicina, de mulheres que leem o oráculo e da minha maestra ayahuasqueira Amélia Panduro. Um grupo de pessoas que foram me alimentando e formando essa proposta de cura sonora através das 9 portas".

Os instrumentos musicais utilizados por Tito no trabalho das 9 portas.

Os instrumentos musicais utilizados por Tito no trabalho das 9 portas.

A porta 1.

"O silêncio é a mãe do som e é a 1ª porta que abrimos – a do silêncio. Dizem que cada um de nós tem um som... é possível. Mas o que eu sinto é que temos dentro, uma essência que é sagrada. E sim nossa essência pode ter um som, e talvez isso seja o mais importante: buscar o seu som... talvez, talvez seja o mais importante. Talvez não.... o que é importante é que o som te leve até a sua essência. A 1ª intenção que colocamos é sempre vincular-te, ser uno com tua essência, e tua essência é sagrada. Desde aí despertamos, é pela essência".

"A 1ª porta que abrimos é a do silêncio. E por isso ficamos um bom momento em silêncio, escutando nossas diferentes vibrações mas sobre tudo abraçando o silêncio".

Porta 2.

"O 2º momento é o de abertura. Usamos de um instrumento que pertence à nossa tradição (andina) mas também a muitas outras tradições – o Pututo, a trombeta de caracol (de concha). Em nossa tradição se usa o Pututo para abrir as cerimônias, é um som que evoca, que pede licença, que também desperta 'dentro'. Que evoca fora e desperta dentro".

Porta 3.

"O 3º momento, a 3ª porta, é um trabalho de ingresso ao seu interior e isso é feito através de dois sons que o teu corpo nunca escutou e que tem uma afinação diferente, ancestral. A combinação de dois instrumentos: o vaso cantante – a guardiã da tradição, e a Antara de cerâmica. Com essas 2 expressões acústicas trabalhamos um momento de caminhar para dentro, de viagem interior. E quando se caminha para dentro se abre portas no tempo. Esse momento abre portas e ingressa dentro, começa a fazer um trabalho à tuas origens. Por isso dizemos que o futuro está atrás e que o passado está à frente. Se faz um trabalho no tempo para se ingressar em lugares ou momentos onde se produzam alguma 'vida'. Se vai até a origem e se observa, a observa. E isso fazemos com essas 2 deidades, com esses 2 instrumentos".

"O que eu estou falando é um resumo de um grupo de pessoas que estudou e trabalhou essa proposta de cura sonora e que chamamos de 'Escola Peru' mas que pode ser chamada de qualquer outra maneira".

"Por que a Antara? Porque tem uma afinação que nunca se escutou, tem intervalos que seu corpo nunca escutou mas talvez sua memória antiga já os tenha ouvido e tratamos de ingressar nesse espaço, o espaço ancestral. São intervalos que criam incerteza, mistérios e a melodia vai aparecendo acompanhada pela vasilha cantante".

"Dois instrumentos de cerâmica, do coração da terra".

O vaso cantante.

O vaso cantante.

Porta 4.

"O 4º momento é o trabalho com a Mãe. Por que? Porque aí está a sua origem. Volta-se à Mãe, é o único caminho, a relação com a Mãe, com a sua origem, com a cova, com o útero. O 4º momento, a 4ª porta é a mãe das flautas, a Mama Quena".

Tito tocando Mama Quena.

Tito tocando Mama Quena.

"Em todo esse trabalho há um instrumento que é constante que é a tigela de metal do Himalaia ou alquímica de cristal de quartzo. É um instrumento 'ponte' em todo o trabalho. 'Ponte' porque é ele que faz a união entra as diferentes etapas, 'portas', do trabalho".

Tigela de metal do Himalaia (vista de cima).

Tigela de metal do Himalaia (vista de cima).

"Sempre ao tocar a Mama Quena coloque uma intenção. A intenção é uma vibração energética e a intenção tem que estar acompanhada do Munay (energia do amor). Se a intenção não é acompanhado do Munay, de uma expressão de amor não vai ser transformadora. A intenção sempre vai acompanhada de uma carga muito afetiva da energia do amor. A intenção é que se remeta à Mãe. O som toca muito a sua cavidade central, seu ventre, seu peito, suas mãos. E a intenção que você produz se comunica com você à nível cósmico, mágico. Sua mente provavelmente não entenderá mas o seu corpo sim porque seu corpo tem outros canais que se comunicam cosmicamente, por isso que a intenção é importante, mas tem que ser uma intenção afetiva desde o Munay, desde o coração do som".

"Termina de tocar a Madre e toca-se novamente a tigela de metal e deixa-se o silêncio após a tigela. Silêncio para se abrir outra porta".

Porta 5.

"O 5º momento é o Munay, o amor. Para se abrir a energia do amor, e aqui toca-se a flauta do amor, a flauta dupla, que tem uma vibração masculina e outra feminina e quando tocadas juntas em algum momento se integram e trabalha a energia do amor. O amor como a vibração mais luminosa do universo. Para que? Para curar desde o coração do som, desde o Munay".

Tito tocando a flauta do amor.

Tito tocando a flauta do amor.

Porta 6.

"No 6º momento, 6ª porta, trabalhamos um instrumento masculino, a flauta Abuelo. Sua característica é expressar-se através de harmônicos. Ela tem um som central e a partir dele temos harmônicos agudos e graves. Geralmente tem sete harmônicos, as vezes seis. Remete às suas raízes, à sua identidade. É uma vara de poder, um cajado, trabalha o seu centro, o seu poder, sua linhagem masculina. Trabalha tudo isso através dos harmônicos".

"Eu trabalho muito o som dela batendo a flauta no chão como um cajado. Por que? Porque tem-se que estar aterrado, nem tudo é cósmico, não, tem que ser ter chão, aterramento e me conecto muito com os avós, com meus ancestrais. É a flauta dos Abuelos. É um som que trabalha muito na coluna e na memória antiga das pessoas. A coluna é o lugar que recepciona melhor o som, dizem que a coluna é a casa do seu som, que aí ele se alojou".

"A flauta Abuelo trabalha muito a sua memória antiga, seu pertencimento, suas raízes, sua linhagem masculina, seu poder".

Tito tocando a flauta Abuelo.

Tito tocando a flauta Abuelo.

"O que cura? A vontade de dizer 'Eu sou!'. Eu sigo sendo, apesar de tudo eu sigo sendo e quero seguir sendo e isso eu reafirmo com a flauta Abuelo. Sua vara de poder, seu cajado".

"E finalizo com o vento tocando a Chacapa para limpar".

Chacapa.

Chacapa.

Porta 7.

"O 7º momento, a 7ª porta, é um momento de purificação e limpeza. Minha proposta de trabalho é flexível, vocês podem recriá-la, mudá-la, acrescentar ou tirar algo. Tem quem prefira fazer a limpeza no início, tudo bem. Nós, nessa proposta, desenvolvida por um grupo de pessoas fazemos nesse momento, na 7ª porta. Os instrumentos desta porta são a pena, ou penas, de Condor e a Antara de plumas. Não gosto muito da palavra 'limpeza' eu prefiro 'liberar', liberar coisas, soltar coisas".

"E em algum momento uso um instrumento que trabalho muito a festividade, o amor, que te emociona e que trabalha principalmente nas suas fibras. Se algo somos mais que água, provavelmente – talvez não e eu esteja equivocado mas se algo somos a mais somos fibras. Intermináveis cordas sonoras que compõe todos nossos órgãos. Somos fibras. Esse instrumento é o Charango, um pequeno instrumento que trabalha com as suas fibras mais íntimas e para tocá-lo não precisa ser músico você só tem que entrar num processo criativo. Tem intervalos de 4ªs, de 5ªs, intervalos perfeitos para comunicar-se com níveis mais profundos".

Porta 8.

"E o Charango é a 8ª porta, 8 de infinito. Toca-se o Charango sempre com uma intenção. Ele tem as vibrações mais curadoras, as dos harmônicos. Se combina o harmônico e sempre uma nota que ingressa, penetra e depois volta-se ao harmônico porque o harmônico 'modela'. Se necessita combinar harmônico com notas diretas. Eu só toco 4 acordes, Fá – que é a corda que abre. Dó, que é muito masculino, que te conecta. Vai tocando e soltando algumas palavras. O som do infinito".

Charango.

Charango.

"Complemento este momento com outro instrumento que vem de outra tradição que é a Kalimba. Água, som cristalino, luminoso. Depois de abrir as suas fibras se comunica com o divino, com a luz".

Porta 9.

"Na 9ª porta incorporamos a flauta dos Hemisférios clássica e outra que utilizo que é a flauta de som constante, a flauta Pedal. Uma flauta que não nos transmite um nome então vocês podem colocar qualquer nome. Uma flauta que tem um som constante e dentro deste som constante os demais sons se alojam e juntos produzem harmônicos. Já é um momento pra ir fechando, pra se ir preparando o encerramento da sessão".

Tito tocando a flauta dos Hemisférios.

Tito tocando a flauta dos Hemisférios.

Encerramento.

"No encerramento uso o tambor de Lua ou Xãmanico e em alguns momentos se pode utilizar uma flauta nativa americana em Fá (frequência da Terra) mais grave".

"Com a flauta nativa se regressa a casa, a mais grave que é usada para se retornar à casa".

Flauta nativa americana ( cedarflutes.com).

Flauta nativa americana (cedarflutes.com).

"Essa sequência, que eu lhes mostrei, é uma das propostas. Eu ensino os passos para que eles não sejam cumpridos, é por isso que eu os ensino. E como ela pode ser útil à vocês? Recriando-a e utilizando-a no que vocês fazem".

 

Maestro Tito La Rosa.
Montaña que Canta, Carhuaz, Peru. Outubro de 2016.

 


# fotos 1, 4 e 7 são de autoria de Igor Alegoria. As 2 e 6 de Luiz Duva. A 3 de Stanford.edu. A 8 e a 9 são do arquivo pessoal de Tito. A 5, 9 e 10 foram tiradas da internet e a 12 de Cedar Flutes.